Céu Urbano

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Blog do Naelton

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Conto: PASTORES DE COMETAS

PASTORES DE COMETAS

Por Naelton Mendes de Araujo
30/10/2007
Prólogo
No espaço escuro e frio três formas insólitas se alinhavam. Moviam-se com a lentidão aparente que só o espaço interplanetário permite.
A forma maior era uma enorme esfera de gelo envolta numa rede de nós brilhantes entremeados por uma película com regiões ora escuras, ora brilhantes. Era o cometa Diniz “embalado para viagem”. Era conduzido em direção a Marte em meio ao Cinturão de Asteróides por uma nave pastora.
A nave era composta de dois círculos concêntricos ligados apenas por dois pontos de um eixo. Os anéis giravam de forma mais ou menos independentes. Assim ela lembrava um giroscópio ou uma esfera armilar. O anel externo era onde estavam motores, geradores principais, um mínimo de área tripulada, naves auxiliares e armamento. O anel interno tinha gerador de energia independente, motores auxiliares, alojamentos, naves salva-vidas, fazenda hidropônica e ponte de controle. Era o modelo padrão de nave pastora da República Marciana. O termo pastora é uma referência a sua função: “pastorear” cometas. Chamava-se Tormenta e no momento não apresentava uma coloração muito convencional.
O objeto menor em órbita do cometa era a Gota. Tinha este nome pelo seu formato e por ser uma das naves auxiliares da Tormenta. Era dela que Narciso Kronos olhava a nave maior que neste momento tinha um aspecto carnavalesco verde e rosa mangueirense. Narciso riu relaxado. O jovem adorava história antiga e tinha lido sobre o Carnaval na velha Terra. Dedilhou o teclado virtual que via a sua frente. A aparência da Tormenta agora era uma confusão pulsante de cores acompanhado a bateria da escola de samba a muito extinta. Ele estava de castigo na Gota exatamente por ter coberto a Tormenta do mesmo tecido nanomolecular que cobria o cometa, o nanóptico. Alegando estar fazendo uma dever de casa em nanoengenharia (seu professor era o engenheiro-chefe, Olaf Armstrong) fez uma pequena experiência não autorizada. Nanoptico é um tecido nanomolecular que cresce e se regenera como se fosse um tecido vivo. O jovem Kronos tinha usado vários metros do tecido, o suficiente para recobrir a nave inteira em poucos dias sem que ninguém notasse. Depois desenvolvera um programa para controlar, a níveis além das especificações, as propriedades ópticas do tecido. Fez uma surpresa no Natal transformando a nave numa bizarra guirlanda verde e vermelha. O comandante Joahnes Kronos não demonstrou satisfação pelo uso clandestino do nanoptico e aumentou o seu período de plantão na pequena nave para uma semana. Além disso ainda tinha que fazer trabalho escolar extra: uma redação sobre a história da poliágua, um assunto chatíssimo.
Parou de brincar com a cor da Tormenta. Deixou o nanoptico totalmente transparente para não chamar a atenção de mais ninguém. Virou sua poltrona para o cometa que tomava mais da metade do seu campo de visão. Como queria estar com Minerva naquele momento, era a pior parte do castigo. Retomou a pesquisa na Web Planetária e suas anotações.

O Caso da Poliágua
Por Narciso Kronos
(Anotação: Lembrar de tirar a notas entre parêntesis, o Prof. Olaf não vai gostar de meus comentários pessoais)
Data:2200 dC - Local: Cinturão de Asteróides
A poliágua já era conhecida, pelo menos em teoria, desde o fim do século XXI (pelo que dizem os livros históricos). Só foi sintetizada em laboratório em 2050. A molécula de poliágua é como se soldássemos várias moléculas de H2O em série, um polímero (Olaf gosta de termos técnicos). Vários pequenos acidentes revelaram a toxidade da nova molécula. Ela era tão mais estável que a água que contaminou vários rios e lagoas. Em contato com água a molécula se replica. Basta alguns dias para que uma gota de poliágua transforme uma piscina de água pura em uma piscina de um composto gelatinoso, inútil para qualquer forma de vida. Mas a poliágua tem um valor comercial enorme. É excelente propelente de foguetes tanto químicos, como nucleares. E assim as pesquisas com a poliágua continuaram pois a sua eficiência como propelente abriu possibilidades de colonizar o espaço muito mais rapidamente.
O acidente mais grave ocorreu quando um foguete experimental russo caiu no Oceano Ártico. Em poucos meses a contaminação chegou ao Atlântico e ao Pacifico. O vapor de água contaminado levou a poliágua para várias nascentes e reservatórios pelo mundo a fora. Mares internos, enseadas, lençóis freáticos, rios, lagoas, golfos, reservatórios de água doce e salgada se tornaram pântanos. Só os depósitos subterrâneos mais profundos (como o aqüífero Guarani no Brasil) escaparam. Em dez anos a água boa de beber e cultivar se tornou uma raridade. Muitos morreram. Eram tão difícil despolimerizar a poliágua que se tornou mais fácil usar o propelente para explorar fontes de água pura no espaço. É irônico: o mesmo veneno que nos roubou a preciosa água era a saída para as jazidas de água pura no espaço quase ilimitadas. Quando a situação de abastecimento na Terra se tornou crítica já havia colônias na Lua, Marte e Júpiter graças a poliágua abundante.
O pouco gelo lunar mal dava para sua população. Marte, que formava uma federação com a Terra, tinha algum gelo mais precisava de mais para alterar seu clima (terraformizar-se, era o termo da usado na época). Seria preciso muita água para tornar desnecessárias as cúpulas que protegem suas cidades. Júpiter tem um lua aquática, seu nome é Europa. Europa é uma esfera de rocha envolta em por um único e profundo oceano. Este oceano é recoberto por uma crosta de gelo. Era a grande esperança de reserva de água pura. Mas infelizmente, surgiu um governo isolacionista que se autodenominou Republica Europa que passou a especular com a água. Isto levou a uma crise política sem precedentes. A tensão cresceu até explodir num único e trágico conflito armado nas imediações de Europa. A Federação Terrestre enviou um cruzador (a primeira e única nave espacial a ter esta classe) a Júpiter para escoltar um comboio de água numa nítida provocação. A República Europa não aceitou a intimidação e recusou-se a liberar o comboio. Um destróier republicano enfrentou e destruiu o cruzador numa batalha dramática e encarniçada. Não sobrou nada do cruzador, nem um sobrevivente. Entretanto o destróier ficou tão danificado que não conseguiu pousar. Espatifou-se contra as crosta de gelo que envolve a lua-oceano contaminando a segunda maior hidrosfera conhecida do Sistema Solar, Europa. Os republicanos dizem que a contaminação foi controlada (duvido).
Esta crise acabou por criar um acordo de paz, um armistício. Os termos do tratado dividem as regiões de prospecção de água no Sistema Solar (uma espécie de Tratado de Tordesilhas espacial, li muito sobre história terrestre). Assim nós, os federais, só podemos capturar cometas internos ou externos ao cinturão de asteróides. Eles, os republicanos, podiam capturar cometas no cinturão e além dele. Mas os oficiais de Europa torcem os conceitos do tratado para interceptar rebanhos de cometas que atravessem o que eles julgam seus domínios, o cinturão de asteróides.
Surgiram então os pastores de cometas. Já se havia desviado vários cometas que passaram perto da Terra para aproveitar sua água. Eram experiências tímidas comparadas as enormes naves pastoras. Elas podiam envolver um cometa inteiro com nanoptico e pastorear de quatro a cinco cometas de uma só vez. O nanoptico pode ser tornado transparente, opaco, refletor, negro e ainda ser usado como painel fotoelétrico para gerar energia. Era um achado (que pode ser aperfeiçoado e muito). O nanoptico podia cobrir em poucas horas uma superfície de um cometa crescendo como uma pele sintética. Tornando o tecido refletor que o cometa não se evaporasse ao aproximar do Sol. Apesar de levar várias redes de nanoptico nos compartimentos de carga só pastoreamos um cometa por vez por conta dos ladrões de água.

Pastoreando cometas na tempestade

-- Alguma novidade, Minerva?
Minerva Valentina Thereskova, a segunda parte de seu nome era uma homenagem a primeira astronauta. Quase toda menina da sua idade tinha Valentina ou Thereskova no nome por isso todos a chamavam somente de Minerva. Ela tirou os grandes olhos verdes dos painéis e virou-se na para o comandante Joahnes Kronos. Quase ninguém o chamava assim. Muitos o conheciam como o Velho Kronos, apesar de ninguém ter coragem de usar o termo “velho” em sua presença. Seu cabelo era ralo e totalmente branco. Combinava muito bem com a pele bronzeada (artificialmente é claro, vaidade não é um defeito assim tão grave). Era muito experiente (mais de 50 anos comandando naves) e bem humorado. Sabia muito bem conduzir sua tripulação de 26 pessoas nas suas viagens de dois anos entre Marte e Júpiter. Pastores de cometas são gente divertida. Tem que ser: imagine ficar de dois a três anos em órbita longe de casa. Ou você se diverte ou fica meio maluco. Minerva era mais séria (só se soltava um pouco mais quando estava com Narciso); séria demais para uma pastora marciana. Tinha nascido na velha Terra e migrado para o espaço muito nova. Com dificuldade tinha se formado em astronavegação. Era um misto de imediato e navegadora-chefe. Era muito jovem para um cargo daqueles e por isso exagerava um pouco, uma perfeccionista. Seu cabelo negro curto contrastava sensualmente com o pescoço longo e alvo. Os ombros de nadadora sobressaíam na blusa verde de alças finas. Numa nave federal ninguém dava muita bola para uniformes e formalidades militares. Dos federais, os marcianos eram os mais descontraídos, os terrestres eram quase tão estressados como os republicanos de Europa. Mas as aparências enganam.
-- Apenas uma chuva de meteoróides não mapeada -- comentou Minerva -- Fez uns furos na tela do cometa mas Narciso já está vendo isso. Disse que o nanoptico já esta se regenerando para fechar tudo em menos de 12 horas. Kronos, quer dizer, comandante Kronos, não vai relaxar o castigo do seu filho? A travessura dele não foi tão grave assim, foi?
Kronos riu discreta e descontraidamente.
-- Até que achei a idéia engraçada e criativa mas não posso deixar passar em branco. Daqui a pouco ele vai começar a brincar com coisas mais sérias. Imagina ele transformando torpedos em fogos de artifício ou poliágua em poligelo ou sei lá o que mais. Não, não. Ele fica lá até domingo, aí você vai poder vê-lo. Acho que vai ter um baile no deck 4, não é?
Minerva fez de conta que não ouviu o comentário. Deveria concordar com o castigo afinal ela, Kronos e Giscard, oficial tático, eram o alto comando da Tormenta.
Fingindo ignorar a insinuação do velho, ela desfia um relatório em tom o mais profissional possível: -- Tivemos que manobrar pra desviar do grosso da chuva de meteoróides mas sem grandes gastos de combustível. Teremos tempestade eletromagnética severa amanhã e depois. Talvez dure uns cinco dias ou mais.
-- A tempestade vem do Sol ou de Júpiter?
-- Dos dois. Nível intenso nos dois.
-- Hum... isso é mal... muito mal. Radiação intensa de dois pontos do céu e em freqüências diferentes.
-- De fato. Sem comunicação de longa distância e sem radar de precisão por todo o período. Quase cegos e quase mudos: presa fácil.
Kronos olhou para o gráfico do vento solar e as fotos das manchas solares. Coçou a barba rala lentamente e disse com a voz mais baixa que o normal: -- Mantenha-me informado e de olhos abertos. Temos os sensores visuais vamos usá-los atentamente. Nada de novo no quadrante?
-- Nada que não devia estar lá.

Surgem os ladrões de água


Um forte solavanco estremeceu o anel externo da Tormenta. Não havia dúvida foi um disparo de morteiro espacial. Um tiro de raspão com pouca força. Tiro de aviso padrão, típico procedimento de uma nave de guerra da Republica Europa. Primeiro deixa claro que pode atirar depois conversam. Minerva conhecia aquilo muito bem. Rapidamente avaliou a situação: não adiantava manobras evasivas eles tinham boa localização visual deles.
O radiocomunicador reproduziu a mensagem do comandante republicano em meio à estática eletrônica:-- Nave Marciana, vocês invadiram nossa área de prospecção de gelo espacial e estamos confiscando sua carga. Mudem de órbita e se afastem deste cometa que é propriedade da Aliança Europa conforme o acordo ... etc...etc...
Kronos já conhecia a conversa fiada. Eles fingiam ignorar que aquele cometa foi capturado bem longe da sua área de prospecção. Era só uma forma de oficializar o roubo de água.
-- Já sabe onde estão, Minerva? – perguntou Kronos de forma brusca.
-- Um instante... eles usaram um pulso de radar para garantir que o tiro seria certeiro. Narciso está me ajudando a triangular em um segundo teremos a direção. À distância eu consigo pelo sinal de rádio mesmo com ruído. Mas se ele está se revelando é porque já se acha senhor da situação.
-- Conto com isso. Ele sabe que a curta distância leva vantagem. Ele confia em seu armamento de longa distância e não pretende chegar perto. Não dará chance para atirarmos. Preciso saber quanto falta para que possam atirar com mais precisão e intensidade.
Minerva já tinha a posição da nave. Estava na direção do asteróide 602. Na verdade a nave estava “exatamente” no lugar do asteróide. -- O que transforma asteróides em naves? -- murmurou Minerva intrigada
-- Aquela chuva de meteoróides que nos atingiu anteontem. – Explicou Kronos -- Eles desmontaram o asteróide com algum raio de força, sem fazer um clarão sequer e tomara o lugar dele alguns dias atrás. Muito bem pensado. Um destróier republicano tem mais ou menos o mesmo tamanho do 602 e a esta distância tem o mesmo aspecto metálico no visual. Com esta tempestade magnética só o distinguiríamos quando estivessem em posição de vantagem. Foi o que fez e fez bem feito.
Kronos olhou o mapa tático que começava a se delinear no espaço a sua frente -- Em dois dias eles estarão a uma distância boa para tiros perfeitos. Quantos dias nos deram de prazo para deixarmos a carga?
-- Três.
-- Isso significa que a essa hora já estão acelerando pra atingir distância de tiro e ficarão por lá prontos para nos despedaçar se não cumprirmos suas exigências.
O radiocomunicador reproduzia a voz arrogante:
-- ...sou o capitão Remius Clarke, comandante da nave Centúria 3, vocês têm somente duas opções: ou dão meia volta e deixam o cometa para nós ou insistem em lutar e eu os transformo em uma nuvem de partículas com o próximo tiro antes que possam fazer sequer mira em nós. Não queremos transformar isso num incidente. Vocês tem três dias para se afastar e não sofrerão nada.
-- Por que o tiro de alerta e esse papo todo? Podiam se mover em segredo até a distância de tiro, de lá faziam o ultimato ou acabavam com a gente simplesmente. – perguntou Narciso que estava acompanhando a conversa virtualmente.
Kronos ergueu a sobrancelha, fazia esta expressão quando sua mente estava lidando com mais coisas do que sua boca falava. Respondeu quase mecanicamente: -- Remius sabe que em menos de três dias a tempestade magnética acaba e poderemos pedir reforços. Se a Nevasca ou uma outra de Marte manobrarem conosco eles terão problemas mesmo com seu armamento de longa distância. Eles não podem lidar com dois alvos, manter distância de duas naves e ainda tomar conta de um cometa; tudo isso ao mesmo tempo. Eles querem gelo fácil, sem problemas. Agora podem causar danos e em dois dias ou menos podem acabar conosco. Estão muito longe de Júpiter pra chamar reforços. Ele não quer outra guerra, apenas uma presa fácil. Precisavam nos fazer entrar em movimento. Pra isso serve este discurso empolado.
Kronos mudou de expressão rapidamente.
-- Vamos fazer o que eles esperam! Minerva dê meia-volta imediatamente, coloque o cometa entre nós e a Centúria. Giscard e Olaf, venham comigo a minha sala.
O oficial tático e o engenheiro-chefe não perderam tempo e se dirigiram para a sala do comandante, conheciam seu comandante muito bem. Estava na hora da ação. Kronos se dirigiu a Narciso pelo comunicador:
-- Volte pra cá, precisamos falar sobre aquele seu trabalho de casa.
-- Aquela redação boba sobre poliágua? Acho que não é hora...
-- Não ... falo do outro trabalho... vamos ... vamos...


Comandante Remius era o protótipo dos oficiais republicanos. Dava um valor enorme a títulos e patentes. Achava-se muito superior à “ralé” marciana. Seu uniforme não tinha uma vinco fora do lugar.
-- Capitão Remius, a Tormenta deu meia volta e foi para traz do cometa. Eles estão fugindo.
-- Não seja ingênuo, imediato. Eles estão tentando se esconder na sombra do cometa pensando que vamos nos aproximar para manobrar. Vamos contornar de longe e se estiverem escondidos vamos atirar neles. Nossa arma principal é muito lenta pra combates a curta distância e eles sabem disso. Tentam nos atrair para uma cilada, só nos aproximaremos do cometa quando pudermos ver sua nave bem de longe e indo embora.
A Centúria movia a toda para a distância de tiro depois que deixara de se fazer de asteróide. Uma vez lá teria controle total da situação. Remius arriscou gastar combustível bastante para estar nesta posição de vantagem e parecia que o resultado seria um acréscimo de vários milhões de gigalitros de água pura para seu clã na lua-oceano. E isso seria sem combate, sem gastar nem um morteiro armado. Se fosse preciso combate não haveria risco nenhum a sua nave.
-- Lá está a Tormenta em fuga, Senhor! Naquela velocidade não terão combustível para voltar e retomar o cometa. – o imediato estava satisfeito com a estratégia tomada. – Não sabia que podiam voar tão rápido.
-- Hum, esperava mais do tal de Kronos, ele é famoso, quase uma lenda. Preferia que estivesse na tocaia, eu faria assim. Para onde eles estão indo?
-- Para Marte como se fugissem do capeta.
-- Estão tentando pedir reforços, tentando fugir da tempestade magnética. E o cometa?
-- Parece menor e envolto em gás... eles estão aquecendo o cometa... deixaram o nanoptico transparente. Querem estragar o nosso prêmio, miseráveis!
-- Vamos para o cometa. Podemos reverter isso fácil, basta cortar o sistema deles. Assim que for possível atirar com precisão acabamos com eles antes de conseguirem enviar qualquer sinal para casa. Já dei chance demais a essa ralé marciana.
A Centúria estava muito rápido para notar que sua velocidade não era apenas resultado de seu motores. Sem radar para medir distâncias com precisão a nave movia-se apenas com informação visual. Imaginem o susto quando o navegadores viram surgir do nada um cometa bem à frente deles logo que dispararam um tiro certeiro na nave marciana em fuga. Houve um clarão de explosão porem pequeno demais, sem muitos destroços fumegantes e combustível inflamando. Logo depois outra aparição deixou a tripulação republicana ainda mais perplexa. Uma nave pastora circular apareceu praticamente na direção oposta do armamento principal ainda em fase de recarga. Era a Tormenta. Logo em seguida um solavanco percorreu o esguio corpo com forma de peixe da Centúria. Eram nítidos tiros de alerta, dois torpedos sem carga que colidiram contra os escudos fazendo mais barulho que danos.
-- O que está acontecendo aqui? – vociferou Remius.
A resposta veio quase como se alguém estive esperando a deixa no radiocomunicador. A voz bem humorada de Kronos soava debochada, entre ruídos de estática. Parecia rir abertamente da complicada situação do capitão republicano:
-- Sou Johannes Kronos, sua nave se encontra próximo demais do meu cometa, vocês já devem estar sentindo sua gravidade. Como podem ver tenho vocês na mira e se eu notar que estão manobrando para atirar os próximos torpedos vão ter mais que vácuo nas ogivas. Sugiro manobrarem para não colidir com o cometa. Mas antes disso quero captar seu lança morteiros esfriando enquanto desarma suas cápsulas. Garanto que a essa distância eu posso ver até a cor da sua roupa de baixo se é que usa alguma.
Conclusão
Remius não teve muita escolha, desarmou os morteiros. Gastou preciosos quilolitros de combustível para desviar do cometa. Levou mais uns tiros leves que inutilizaram suas armas de curto alcance e ainda teve a humilhação de ter que negociar combustível para voltar para Júpiter. Kronos só aceitou como pagamento nada mais nada menos que o lança morteiros. Era isso ou ficar a deriva enquanto os reforços marcianos chegavam bem menos interessados em negociar.
Narciso usara a sua nova habilidade de manipular a luz para criar as ilusões que tiraram Remius de sua posição de vantagem. A tripulação não notou a aproximação nem da Tormenta, nem do cometa, ambos imitando os aspecto do espaço escuro com perfeição. A mesma tempestade que não denunciou a chegada da Centúria não permitiu que captassem nada no radar. A imagem da Tormenta que viram se afastando era, na verdade, a pequena Gota. Ia voado a toda no piloto automático envolta numa rede de nanoptico simulando perfeitamente o aspecto da nave maior.
Esse episódio praticamente acabou com o roubo de água. A tecnologia dos morteiros republicanos e a capacidade de camuflagem marcianas tornaram os comboios de gelo muito mais seguros. Isso forçou uma trégua entre a República Europa e a Federação Terra-Marte. A água de Europa passou a servir a Terra sem especulação. Os cometas da família de Júpiter passaram ser levados para Marte em rebanhos de quatro ou cinco. Eram conduzidos por apenas por uma nave pastora como antes do conflito. Anos mais tarde o governo isolacionista caiu e Europa passou a fazer parte da Federação. Dizem que foi por conta do novo equilíbrio de forças e o barateamento da água.
Narciso hoje é comandante. Sua nave pastora, a Neblina, costuma ser um espetáculo bem chamativo. Às vezes brilha em verde e rosa, às vezes em azul e branco enquanto no deck 4 um baile animado se desenrola. Minerva e Narciso criam, animados, sua versão dos passos de ritmos a muito esquecidos. Pastores de cometas são gente divertida, mas não pensem que são indefesos ou inofensivos. São gente boa pra quem é gente boa, não se meta no caminho deles. Sua carga é fria mas eles não.

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